Cinema: Nosso Lar dá fôlego à onda espírita no cinema nacional

Depois do sucesso de Bezerra de Meneses e Chico Xavier, novo longa acumula 1,7 milhão de espectadores

Fonte: Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura (editado)

Se você tem a impressão de ouvir falar muitas vezes sobre espiritismo ultimamente, saiba que não é mera coincidência a frequência crescente das citações. Pode-se dizer que há um levante espírita em curso no entretenimento brasileiro, coroado agora pelo êxito comercial de Nosso Lar, filme brasileiro que estabeleceu o recorde de levar 1 milhão de espectadores aos cinemas em apenas cinco dias e acumula quase 1,7 milhão de bilhetes vendidos nos primeiros dez dias em cartaz, desde a estreia em 3 de setembro.

O caminho tem sido pavimentado nessa direção desde pelo menos 2008, quando Bezerra de Menezes – O Diário de um Espírito levou mais de 500 mil espectadores aos cinemas, a partir de um orçamento modesto de R$ 2 milhões (Nosso Lar custou dez vezes mais), levantado pela produtora cearense independente Estação da Luz Filmes.

A Globo Filmes detectou o movimento mais ou menos subterrâneo e se associou à Estação da Luz na produção de Chico Xavier, que estreou em abril deste ano, demorou oito dias para vender 1 milhão de ingressos e levou ao cinema até hoje 3,4 milhões de espectadores. O espiritismo avança também na tela da TV Globo, na atual novela das 18h, Escrito nas Estrelas. O médium mineiro Chico Xavier (1910-2002) é referência presente nos três filmes, principalmente na dramatização homônima dirigida por Daniel Filho e protagonizada por Nelson Xavier e Ângelo Antônio. Um dos espíritos que ele afirmava guiá-lo era o do médico e político cearense Bezerra de Menezes (1831-1900), que se tornaria um militante espírita do século XIX. Xavier aparece em pessoa ao final de Bezerra de Menezes, recebendo mensagens do mentor morto. E Nosso Lar é baseado em livro homônimo atribuído ao espírito André Luiz, mas lançado por Chico Xavier – o médium escreveu 412 livros baseados na psicografia, ou seja, na transcrição de mensagens enviadas pelos mortos.

O êxito acumulado dos três filmes prenuncia uma avalanche de produções de temática parecida. O diretor de Nosso Lar, Wagner de Assis, fala de adaptar Os Mensageiros, também psicografado por Xavier. Um dos produtores de Chico Xavier, Tomislav Blazic, trabalha na adaptação cinematográfica de Ninguém É de Ninguém, da escritora espírita Zíbia Gasparetto. E a Estação da Luz já tem mais duas produções filmadas, As Mães de Chico Xavier e Área Q, que devem estrear em 2011.

Ponta-de-lança da voga espírita no cinema, essa produtora é braço cinematográfico da Associação Estação Luz. Essa ONG, fundada em 2004 no município cearense de Eusébio, esteve envolvida em controvérsia há um ano, ao captar recursos do Fundo Nacional de Cultura, do Ministério da Cultura (o MinC), que acabaram utilizados na realização da 3a Marcha Nacional da Cidadania pela Vida, na prática uma manifestação contra o aborto. Quando o caso foi revelado pela Folha de S.Paulo, o MinC determinou a devolução dos recursos pela Estação da Luz. Dirigido por Glauber Filho (que foi presidente da TV Ceará, rede pública local) e Joe Pimentel (da produtora Trio Filmes), Bezerra de Menezes não trata de aborto, mas é explícito quanto ao tema em seu desfecho, quando um letreiro avisa: “Este filme é dedicado às milhares de vítimas de aborto provocado”. No mais, narra a trajetória do personagem interpretado por Carlos Vereza de modo sisudo, privilegiando os embates do espiritismo com a Igreja Católica e a intelectualidade. O tabu do suicídio também é referido de passagem, como “aquele que é considerado o crime mais afrontoso ao Criador”.

A repulsa ao suicídio, por sinal, é um dos fios condutores centrais de Nosso Lar. Desregrado e despreocupado com a própria saúde, o médico André Luiz (Renato Prieto) morre e é conduzido ao purgatório (chamado no filme de “umbral”), um pântano escuro e povoado por homens e mulheres maltrapilhos e dilacerados, em cenas que evocam vagamente o videoclipe “Thriller”, de Michael Jackson. André sofre todo tipo de privação no umbral, antes de ser resgatado para o paraíso, batizado de “nosso lar”. Ali, descobrirá que passou pelo purgatório por ser um suicida, ainda que inconscientemente. Ao assimilar o proselitismo pelo trabalho incansável e ininterrupto e pela dedicação ilimitada aos outros espíritos, ele completará sua admissão ao “nosso lar”, até futura reencarnação. O purgatório e o céu materializados na tela grande pelo diretor Wagner de Assis dá a Nosso Lar tom mais fantasioso em comparação aos outros filmes. O espírito de André passa primeiro por um ambiente hospitalar, depois por um campo verde entre nuvens (o purgatório escuro fica na periferia do paraíso), enfim pelo lar definitivo. Trata-se de uma cidade feita de gramados, casas tipo condomínio norte-americano, prédios à moda de Oscar Niemeyer e veículos futuristas de transporte – em diversas cenas, faz lembrar o parque Ibirapuera, ou o plano-piloto de Brasília. Os espíritos mais devotados são promovidos e comandam grandes ministérios, em simbologia análoga à dos governos políticos cá da Terra. Nosso Lar não cita o catolicismo ou outras religiões, nem as relações entre o espiritismo e a mídia expostas por Daniel Filho em Chico Xavier. Prefere se deter exclusivamente na doutrina espírita, sob trilha sonora etérea composta especialmente pelo norte-americano Philip Glass (na cinebiografia de Daniel Filho, o compositor Egberto Gismonti foi o encarregado da trilha). De certo modo, pode-se perceber uma escalada na sequência formada por Bezerra de Menezes (a luta pela aceitação do espiritismo), Chico Xavier (a conquista de notoriedade) e Nosso Lar (o espiritismo em si).

Anúncios

Sobre fnaxbuzios

Na Arte, faço de tudo um pouco: desenho, pinto, faço cerâmica. Cometo minhas poesias e contos. Sou tradutor de artigos científicos e livros da área médica. Fiz algumas exposições de cerâmica e desenhos no Rio de Janeiro, Niterói, Búzios, Rio das Ostras e São Paulo. Um livro publicado (em co-autoria): "O Ensino de Primeiro Grau". Artigos em jornais daqui de Búzios. Formado em Pedagogia da Arte e em Medicina Veterinária (por isso, dei muita aula de Educação Artística, sobretudo Cerâmica, e trabalhei bastante como veterinário de campo). Ex-professor universitário - na cadeira de Composição II de Arte na Faculdade de Arte do Centro Educacional de Niterói, e de Bioquímica e Fisiologia em algumas Faculdades do Rio de Janeiro. Mestrado (ainda não defendido) de Patologia Experimental pelo Departamento de Patologia Clínica do Hospital Universitário Antônio Pedro - Niterói / Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo. Vivo aqui no paraíso de Búzios há 12 anos... na Marina da Praia Rasa. Rubronegro doente. Amo o Rock Clássico. E o Carnaval. Um enorme orgulho profissional: ter sido Diretor Carnavalesco da Escola de Samba Combinados do Amor, a gloriosa agremiação do bairro do Caramujo, em Niterói... Meu bloco carnavalesco para sempre: "Filhos da Pauta", também de Niterói. Sou Cidadão Buziano diplomado. Sou membro da Academia de Letras e Artes Buziana. Meu projeto atual: estou envolvido na edição de meus contos e poesias em forma de e-book (antes da edição em papel...) e numa exposição de desenhos e guaches a ser realizada em breve no Rio de Janeiro e, aproveitando o embalo, em outra, cá em Búzios e em Cabo Frio (simultâneas), só de esculturas de barro. Hoje em dia, pertenço ao Conselho Editorial e escrevo de vez em quando no Jornal Primeira Hora, único diário de Búzios. E, vez por outra, vou conversar um pouco sobre cultura e otras cositas más no programa Bom Dia Búzios, na rádio Búzios-Cabo Frio AM1530, de 10 ao meio-dia, quartas e quintas. Frase para me definir: odeio incondicionalmente qualquer tipo de preconceito. Adoro minha praia Rasa, onde vivo, sou da noite, sou festeiro, e meu Triângulo das Bermudas é o eixo Rio - Niterói - Búzios. Meu maior vício é conversar (sempre! muito!...) com as pessoas - jogar conversa fora, filosofar, falar sobre cultura, rir... Objetivo maior: viver o momento presente, todos os momentos da minha vida. Profissão de fé: amizade acima de tudo! "Leia poesia... não dói, não engorda, e é de graça. Além disso, faz pensar e exercita os músculos cerebrais."
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s