Os 80 anos de Ferreira Gullar, hoje

Gullar completa 80 anos com o lançamento do livro “Em alguma parte alguma”

A estrela morta cuja luz ainda brilha, os ossos que atritam e provocam o tranco e o jasmineiro “disfarçado de arbusto” nascem de espantos na poesia de Ferreira Gullar. Há 11 anos sem publicar, o poeta está de volta com “Em alguma parte alguma”, livro que reúne 59 poesias e chega a tempo de celebrar os 80 anos do poeta, comemorados hoje.Foi um ano bom para o autor do “Poema sujo”. Começou em junho, com o anúncio de que vencera a 22ª edição do Prêmio Camões pelo conjunto da obra. Faltava o nome do maranhense José Ribamar Ferreira na estante que traça a linhagem dos mais importantes autores de língua portuguesa. Agora, Gullar figura ao lado de João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Antônio Cândido, João Ubaldo Ribeiro e Rubem Fonseca na lista de premiados.

A alegria continuou em agosto, quando a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) homenageou o poeta com uma mesa exclusiva dedicada à celebração dos 80 anos. Gullar contou, entre outras histórias, como plantou sob a terra do jardim da casa do pai do artista Helio Oiticica o seu “Poema enterrado”. “O único poema com endereço da literatura brasileira”, explicou. Arrancou risadas da plateia e riu também. Ainda na Flip, adiantou para o público alguns versos de Em alguma parte alguma. Leu trechos de Fica o dito por não dito, poema sobre o nascimento da poesia, em que diz: “O poema/antes de escrito/antes de ser/é a possibilidade/do que não foi dito/do que está/por dizer”.

São três as divisões de “Em alguma parte alguma”. Na primeira, o próprio poeta aparece aqui e ali, surpreso com o ranger dos próprios ossos, insone, pensativo sobre o ato de fazer poesia, confortável ao lado de um suposto duplo. “Foi-se formando/a meu lado/um outro/que é mais Gullar do que eu”, avisa.

Até a morte se faz presente como lugar em que impera o nada. O universo e seus elementos compõem a segunda parte do livro. O poeta se queixa de ter visto pouco do universo, mas arrisca discorrer sobre o tempo cósmico, a luz, o som, a água, as estrelas. As coisas mais terrenas também ganham lugar na imensidão do vazio desconhecido. O poeta grudado ao musgo como se fosse sua pele, o poeta em dúvida sobre as diferenças entre sua pessoa e a planta, o poeta surpreso diante da floresta toda contida no louva-deus.

Neoconcretismo
A terceira parte é reservada a alguns notáveis terráqueos. A pintura instiga o poeta, que pergunta “e se a mentira fosse verdadeira?/como fazê-la?”. São os primeiros versos de uma série de poemas dedicados a artistas que se foram, alguns amigos com os quais Gullar conviveu, especialmente nos tempos do neoconcretismo.

Amilcar de Castro, Franz
Weissmann, Mary Vieira e Iberê Camargo têm versos especiais. Em Quadro-corpo, Gullar ensina modos de ver diante das pinturas de Camargo. “O espaço é nada?”, se pergunta em Os fios de Weissmann, sem precisar descrever os desenhos no vazio típicos da escultura do artista. E para Amilcar de Castro o passeio é pelos planos dobrados. Mínimo voo é quase uma versão em palavras do gesto do escultor.

O espanto diante de uma cidade marcada pela passagem dos anos fecha o livro. Gullar exilou-se em Santiago (Chile) nos anos 1970, depois de viver alguns anos na clandestinidade para escapar da perseguição do regime militar. Também passou por Moscou, Lima e Buenos Aires. Mas é à capital chilena que se refere no longo poema que inicia a quarta parte de Em alguma parte alguma. O poeta está de volta a Santiago e, ao reconhecer a paisagem, busca um passado que não encontra. Com Rainer Maria Rilke e a morte, Gullar encerra o livro. Rilke encontra o rosto da morte no silêncio, num susto no fundo de uma cisterna.

Poemas de Ferreira Gullar no livro “Em alguma parte alguma”

Mínimo vôo (a Amílcar de Castro)

No começo era o plano
a placa plana
que eu dobro e vira
asa
o vôo
que alça
do casulo do aço
A obra
eu a começo
do começo
de zero
(se não erro)
pra que a placa
que dobra
e vira asa
nunca esqueça
seu começo
e a ele volte sem erro
e assim viva
esta nova idade do ferro

Insônia

É alta madrugada. A culpa
joga dama comigo
no entressono. Cismo
que ela me engana
mas não bispo o seu logro.
Ganho? Perco? Blefo?
Afinal, qual de nós rouba no jogo?

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Sobre fnaxbuzios

Na Arte, faço de tudo um pouco: desenho, pinto, faço cerâmica. Cometo minhas poesias e contos. Sou tradutor de artigos científicos e livros da área médica. Fiz algumas exposições de cerâmica e desenhos no Rio de Janeiro, Niterói, Búzios, Rio das Ostras e São Paulo. Um livro publicado (em co-autoria): "O Ensino de Primeiro Grau". Artigos em jornais daqui de Búzios. Formado em Pedagogia da Arte e em Medicina Veterinária (por isso, dei muita aula de Educação Artística, sobretudo Cerâmica, e trabalhei bastante como veterinário de campo). Ex-professor universitário - na cadeira de Composição II de Arte na Faculdade de Arte do Centro Educacional de Niterói, e de Bioquímica e Fisiologia em algumas Faculdades do Rio de Janeiro. Mestrado (ainda não defendido) de Patologia Experimental pelo Departamento de Patologia Clínica do Hospital Universitário Antônio Pedro - Niterói / Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo. Vivo aqui no paraíso de Búzios há 12 anos... na Marina da Praia Rasa. Rubronegro doente. Amo o Rock Clássico. E o Carnaval. Um enorme orgulho profissional: ter sido Diretor Carnavalesco da Escola de Samba Combinados do Amor, a gloriosa agremiação do bairro do Caramujo, em Niterói... Meu bloco carnavalesco para sempre: "Filhos da Pauta", também de Niterói. Sou Cidadão Buziano diplomado. Sou membro da Academia de Letras e Artes Buziana. Meu projeto atual: estou envolvido na edição de meus contos e poesias em forma de e-book (antes da edição em papel...) e numa exposição de desenhos e guaches a ser realizada em breve no Rio de Janeiro e, aproveitando o embalo, em outra, cá em Búzios e em Cabo Frio (simultâneas), só de esculturas de barro. Hoje em dia, pertenço ao Conselho Editorial e escrevo de vez em quando no Jornal Primeira Hora, único diário de Búzios. E, vez por outra, vou conversar um pouco sobre cultura e otras cositas más no programa Bom Dia Búzios, na rádio Búzios-Cabo Frio AM1530, de 10 ao meio-dia, quartas e quintas. Frase para me definir: odeio incondicionalmente qualquer tipo de preconceito. Adoro minha praia Rasa, onde vivo, sou da noite, sou festeiro, e meu Triângulo das Bermudas é o eixo Rio - Niterói - Búzios. Meu maior vício é conversar (sempre! muito!...) com as pessoas - jogar conversa fora, filosofar, falar sobre cultura, rir... Objetivo maior: viver o momento presente, todos os momentos da minha vida. Profissão de fé: amizade acima de tudo! "Leia poesia... não dói, não engorda, e é de graça. Além disso, faz pensar e exercita os músculos cerebrais."
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